sexta-feira, 15 de outubro de 2010

"A mémória de Florbela Espanca"

Dorme, dorme, alma sonhadora,
Irmã gémea da minha!
Tua alma, assim como a minha,
Rasgando as núvens pairava
Por cima dos outros,
À procura de mundos novos,
Mais belos, mais perfeitos, mais felizes.

Criatura estranha, espírito irriquieto,
Cheio de ansiedade,
Assim como eu criavas mundos novos,
Lindos como os teus sonhos,
E vivias neles, vivias sonhando como eu.
Dorme, dorme, alma sonhadora,
Irmã gémea da minha!
Já que em vida não tinhas descanso,
Se existe a paz na sepultura:
A paz seja contigo!

(Poema de autor desconhecido encontrado no espólio de Fernando Pessoa)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Poema Velho 2

Passei a procurar o teu olhar por toda a noite.
Procurei-o por entre luzes que iluminavam
os sorrisos no céu.
Encontrei amarguras ao invés da tua ternura.
E as fendas assim se abriram sob os pés
de quem bailava ao som do luar.
E vendavais inundaram aqueles olhares insípidos.
Procurei então pelo teu!
E tornei-me assim o eterno sonhador
que em noite encantadas
às crianças se aproxima.
E a contar belas lendas de amor,
procura o teu olhar perdido,
em algum sorriso infantil.

01/01/2008.

Poema Velho 1

Mergulhei nas dobras da minha memória
apostando ouvir no mar o som de tuas gargalhadas
abafadas pelo meu abandono.
E foi percorrendo as imagens turvas de minha mente
que encontrei a tua primeira imagem, com teu sorriso tímido,
e tua última aparição, com olhar enfurecido pelas mágoas dos anos.
Corri, então. Fugi das lembranças de outrora.
Lembranças de tardes ensolaradas
substituídas por noites escuras e gélidas.
E percebi que o amor pode ser sepultado.
E que os amantes guardam amortalhadas
lembranças de um amor que nunca foi
dentro do peito doente insandencido.

02/01/2008.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Confissões para a aurora...

O amor não deu, foi pouco para o nosso amanhecer.
Esperei a aurora, e a cada raio de sol matinal
te vi desaparecer aos poucos, como se sob efeito
de uma nebulosa que dissipa suas luzes em feixes coloridos.
E assim se esvai a nebulosa, e com ela
todo o desejo de permanência, de completude, de infinito.
Ah, se a aurora fosse feita apenas de crepúsculos.
Um crepúsculo após o outro para o nunca amanhecer.
Ah, se a claridade do dia, a mesma que dissipa o teu ser,
fosse apenas escuridão para o meu bem mais querer.
(Julho/2006)

FENDA

Nossos corpos exaustos de amar, inertes,
ansiando pelo último gozo, que não existe,
olham um para o outro, cúmplices,
emudecem no silêncio da manhã.
Bocas entreabertas,
Olhos que gritam desejos
Sorrisos que imploram
Outros sorrisos finitos,
Talvez vindouros
Em uma outra manhã qualquer.
(Dezembro de 2006)

quarta-feira, 4 de março de 2009

À MARGEM DO TEJO

"Porque quem ama não sabe o que ama nem o que é amar(...)" Fernando Pessoa

Nunca vi o Tejo, nem sei se o verei,
Tejo de águas profundas onde dormem almas
Apaixonadas, amortalhadas, almas de poetas
Que nunca poetizaram.
Nunca vi o Tejo, mas sim os teus olhos
Teus olhos, negros como suas águas à noite,
Mergulhados na escuridão do abismo lusitano
A separar nossos espíritos, meus desejos
Nunca vi o Tejo, mas em sua profundeza
Está a minha dor e em suas margens
Meus versos são desfeitos ao vento.
O Tejo abriga a minha alma amortalhada,
Alma de mais uma amante apaixonada
Amante de incerteza e amada de ninguém.
O Tejo, nunca o vi, os teus olhos sim, o vêem agora,
E na névoa que paira à margem, desenhas o rosto
De uma rapariga qualquer, de inocência desejada
E coração virgem...
Nunca vi o Tejo, mas à sua margem choro
a dor de não ser a tua rapariga desejada,
de não ter os teus olhos negros
negros profundos do Tejo.

Michelle Vasconcelos
28/01/2009

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

TUA FALTA

(Ao meu maior Amor)

Hoje apenas sinto algo inerte e frio a pulsar em minhas veias.
Coração de pedra, desenhado pelo tempo e pelas fortes tempestades.
Teu sangue audacioso e forte se perdeu neste meu corpo convalescido.
Corpo e coração que sofrem a tua ausência, um querer sem poder querer,
Insanidade de um coração vítima do acaso.
Queria poder ver-te pela última vez, talvez
E que a última assim não fosse, e que se multiplicasse
E trouxesse a luz novamente aos meus dias.
Só tu poderias expulsar os fantasmas que hoje, na escuridão da noite,
Vêm habitar o meu sono...
E é como se não tivesse vivido, apenas morrido.
Sinto em minhas veias o veneno do arrependimento.
O eterno me assusta mais que o efêmero.
E volto a sentir a tua ausência, mais uma vez.
Por que não me disseste que seria assim?
Por que não vens durante à noite
E me acalentas pela boca de um anjo?
Diz o que preciso escutar!
Acalenta o meu coração, moribundo, que não desiste de te relembrar...

Michelle Vasconcelos
31.01.09